terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Lá vem o Natal...

Montes de gente emocionada, felizes, embaladas pelo tal ‘espírito natalino’.
Eu curto o Natal, acho legal isso de todo mundo ficar bonzinho, querer ligar para a mãe que mora longe, falar com o irmão vagabundo, querer ajudar criança de farol... Acho bem legal...
O que me irrita são as compras, a gente sai na rua e está todo mundo lá: Vai um não sei o que? E um não sei que lá? O preço é especial para o natal...
Ahhh cansa né?
Eu fico cansada demais saindo na rua nestes dias. Eu vou na rua e compro umas coisas e depois, quando chego em casa, fico olhando e pensando: “Por que raios eu comprei isso?”
Eu não estava precisando de nada e estava tudo bem. O plano era comprar um pisca-pisca, um guarda-chuva bom e uma luz companheira, vulgo abajur (porque tenho medo do escuro).
Plano feito... Vamos às compras... Luz, câmera e ação: Camila, Flávia e Cristiane na rua...
O pisca-pisca eu comprei, muito bonitinho, um que chama pisca-pisca arroz; o guarda-chuva também foi comprado, mas eu não sei se é bom ou não, no fim das contas tudo que eu queria era uma coisa rosa e prata porque é lindo e é a minha cara (a perua falou mais alto dentro de mim). A luz companheira foi comprada também como o planejado... Mas, de repente, lembrei que meu creme com pó de mica (um que brilha) tinha acabado e que precisava de uma toalha bem fofinha e vermelha. Itens comprados...
Não sei bem como foi que aconteceu, sei que coloquei uma melissa no pé e ficou linda, branca, com salto bonito, tudo de que me recordo é de mim saindo da loja com a sacola na mão. Eu comprei uma melissa, a Camila comprou uma e a Cris comprou outra... Como pode? E sabe por quê?
Porque é Natal...
O que tem a ver uma coisa com a outra?
O Natal existe porque o menino Jesus, o Messias, que veio para salvar o mundo, nasceu. Ele nasceu em uma manjedoura, segundo me consta, o que tem ele a ver com o capitalismo e as compras? Eu sei muito bem como a coisa degringolou para isso, mas isso é papo para um outro post.
Eu cheguei em casa e fiquei olhando para aquele sapato, de plástico, magicamente lindo (fetiche), como se ele fosse um alienígena. Como ele foi parar ali em cima da minha cama?
Maldito seja o capitalismo que consegue envolver em sua teia até mesmo a mim que até russo falo...
O vendedor Otávio da khelf nunca vai esquecer as três irmãs que passaram pela loja dele no sábado...
Quem aí usa 36?
- Ah moço só a Cris usa 36...
- 36? Não passa nem uma das minhas pernas... Sacanagem...
36 está na promoção porque só gente de mentira usa este tamanho...
Enfim, depois de muitas risadas e uma felicidade natalina, é verdade, nós três fomos para casa cheias de comprinhas inúteis, fora o guarda-chuva e a luz companheira (senão não durmo).
Não sei como, mas záz... lá estavam: uma melissa, um guarda-chuva, duas toalhas de banho, um creme com pó de mica, um blusinha, filmes, um pisca-pisca, uma luz companheira e minha barriga lotada de comida japonesa e um sorvete que não vale o que custa...
Eia... uplá... maldito capitalismo e maldito Papai Noel.
Mas, benditas sejam as minhas irmãs que custam exatamente mil sorrisos...
Agora é tomar banho, me enrolar na toalha e ligar o pisca-pisca para esperar o Natal.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um crime americano?

Um título sugestivo, o que define o crime é o fato dele ser americano, ou seja, um crime tipicamente americano. Será? Como boa anti-americana, tendo a concordar com esse tipo de afirmativa. No entanto, não vou acreditando assim sem saber do que se trata. Afinal, fenômenos do Mal estão por toda parte, Hitler e Mussolini não nasceram nos Estados Unidos da América.
O que levaria um ser humano a agir como Gertrude Baniszweski (Catherine Keener)?
Essa é a atormentante pergunta que o diretor se faz e nos faz fazer também, não só Gertrude Baniszweski, mas também todas aquelas crianças, não apenas seus filhos, mas também as crianças de toda a vizinhança daquele bairro. Por que torturam Sylvia Likens (Ellen Page)?
Quando perguntadas a respeito do motivo pelo qual torturavam Sylvia, a resposta era simplesmente: Não sei!
Como não sabiam? O diretor Tommy O’Haver faz questão de ressaltar bem o fato de que se trata de uma comunidade altamente religiosa, todos vão à igreja, as crianças são todas freqüentadoras da igreja do bairro e o Reverendo Bill Collier (Michael O'Keefe) participa ativamente da vida de todas essas crianças. Pior que isso, todas as pessoas do bairro sabiam o que estava acontecendo na casa de Gertrude Baniszweski. E, quando perguntados pelo motivo de não abrirem a boca sobre tamanha atrocidade, disseram apenas que não podiam “se meter” e que cada pessoa sabe daquilo que acontece dentro de sua casa.
Primeiro tratemos de Gertrude Baniszweski, ela tem sua personalidade completamente afetada pela presença da jovem Sylvia Likens, uma moça inteligente, dedicada e até bem madura para sua juventude. Enfim, tudo que Gerlie queria que sua filha Paula (Ari Graynor) fosse.
Paula é uma jovem sem nenhum fundamento moral, sua mãe tem sete filhos, sendo que o último é filho de um jovem apenas seis anos mais velho que ela mesma, o que torna a mãe uma amiga sua e não mãe. Paula se mostra com uma personalidade muito parecida com a da própria mãe, alguém promíscuo, que não vê muito bem as fronteiras entre certo e errado quando o assunto é homens.
Gerlie então começa a descontar em Sylvia toda a sua frustração com a filha Paula. Na cabeça de Gerlie, Paula é alguém perfeito, jamais faria as coisas de que a acusam. Sylvia é que a má influência, ela é quem teria levado a semente da maldade para a casa dos Baniszweski. Então, cabe à Gerlie punir Sylvia por isso.
Veja bem que não se trata da representação do Mal, não se trata de um julgamento. Gerlie é ou não má? Acho que se trata muito mais de uma mente atormentada e o diretor deixa isso bem claro, ele não está dizendo que Gertrude é a representação do Mal, ela é alguém com graves problemas, apenas humana, por mais estranho que isso possa parecer.
Passemos para a outra parte da história. Por que as crianças não ajudam Sylvia e ainda por cima sentem prazer em machucá-la ainda mais?
Eu vejo uma série de valores distorcidos, não quero parecer uma tradicionalista dizendo isso, mas, só vejo esta explicação.
Lembrei-me dos julgamentos dos “culpados” pelos crimes ocorridos durante o período nazista. De quem é a culpa pelo nazismo ter existido? Do Hitler?
Certamente a resposta envolve uma série de fatores que não envolvem a idéia de uma única pessoa, Hitler tinha um plano, um plano bem definido, que foi crescendo e se tornando possível devido a muitos motivos. O Mal, aquilo que reconhecemos como sendo o contrário total do Bem, por principalmente violar a condição humana, que é para nós seres humanos inviolável, ou deveria ser, só é possível porque encontra condições ideais para se desenvolver e propagar.
Hannah Arendt, ao criar o magnífico termo “banalidade do mal”, tinha em mente isso, o mal se tornou algo banal, há condições para ele se desenvolver em quase qualquer lugar.
O Mal está dentro de cada um de nós certamente, diria Freud, mas não o cometemos porque somos seres civilizados, aprendemos a viver em sociedade e criamos valores éticos e morais que respeitam, sobretudo, a existência do outro. Viver em sociedade é levar em consideração que sua liberdade acaba onde começa o direito do outro.
Sendo assim, retornando ao caso verídico retratado no filme, parece haver um problema de valores morais. O que leva uma criança a desrespeitar a humanidade do outro? A não reconhecer que o outro sofre dores como ele também sofre?
Uma formação defasada. Trancada dentro de suas casas, assegurando suas individualidades, a sociedade que surgiu nos anos de ouro do capitalismo fez suas próprias regras. A história se passa justamente no início da crise dos Anos de Ouro do capitalismo, assim chamados por Eric Hobsbawn, 1965. A individualidade cultivada, sobretudo pela burguesia desde a Revolução Industrial, mas levada às últimas conseqüências nos nossos tempos, construiu uma nova forma de pensar, aqueles que têm dinheiro e podem jogar o jogo do capitalismo se preservam, organizam-se em pequenos grupos que façam valer aquilo em que acreditam. No entanto, uma parcela grande da população é deixada de fora, isso no mundo inteiro, não apenas nos Estados Unidos. Essa parcela cria também suas próprias regras. Mas, note-se bem que isso não é viver em sociedade, isso é visar unicamente seu próprio bem, sua própria forma de viver. Sendo assim, acredito sim, que nos Estados Unidos haja condições mais específicas para esse tipo de horror se desenvolver.
O Mal torna-se banal à medida que o respeito ao outro se perde, as regras do jogo são outras, o outro é considerado como alguém que está no jogo ou não está.
E, para terminar, o diretor deixa a inquietante pergunta: Deus tem um plano para todos, qual era o plano dele para Sylvia Likens?
Para afirmar mais uma vez, que em uma sociedade sem valores, nem Deus se justifica.
Não é um grande filme, afinal o foco está muito mais na história contada, ou seja, vemos nitidamente que o conteúdo é valorizado em detrimento da forma, o diretor deixou a “história se contar”, baseou-se unicamente nos depoimentos registrados e colocou sua imaginação para funcionar. Se não constrói nenhuma obra de arte cinematográfica, é válido pelo mérito de refazer as inquietantes perguntas feitas por tantos outros grandes pensadores ao longo dos tempos como Machado de Assis, Dostoiévski, Tolstói e a própria Hanna Arendt, já citada. Não parece ser preocupação dos norte-americanos fazer perguntas inquietantes, mas sim manter um simulacro de felicidade, garantido pelo falso otimismo existente em quase toda a cultura de massa produzida por eles. Só por ir contra a tudo isso, o filme de Tommy O’Haver, com roteiro dele próprio e de Irene Turner, já merece ser visto.
Perfeita a atuação de Catherine Keener como a estranha Gertrude.
Antes de assistir, prepare seus sentidos acostumados com uma realidade artificialmente sob controle, tudo será “sacudido”.

Ouvindo: Saudade - Marcelo Camelo

domingo, 9 de novembro de 2008

Nem tudo está perdido...

Difícil acreditar em algumas coisas...
Foram duas semanas difíceis, algumas pessoas fazem por um curto espaço de tempo, mas conseguem fazer com que nos sintamos soterrados...
Qual o motivo? Por que se deixar abater por alguém tão infinitamente menor espiritualmente, deslumbrado, alienado...
Evito sempre dividir seres humanos em categorias, no entanto, às vezes torna-se impossível evitar, pois, eu, como ser humano ativo e pensante no mundo, tenho sim uma opinião a respeito de tudo, inclusive a respeito de pessoas. Sendo assim, eu acho que há gente melhor e pior, se considerarmos alguns pontos de vista.
Neste mundo loucamente competitivo, às vezes o poder é dado a quem não o merece de fato, me preocupa a idéia de que talvez ninguém mereça o poder. Será verdade a afirmação de Bakunin, de que qualquer pessoa quando sobe ao poder será irremediavelmente corrompida? Assombra-me essa possibilidade. Bakunin era um radical, anarquista e por isso não achava que haveria um meio-termo (vamos usar o hífen, enquanto o presidente permite). Tudo é o extremo. Eu ainda quero acreditar que nem todos tornar-se-ão víboras diante do poder.
O fato é que o poder é, muitas vezes, dado a pessoas despreparadas que não sabem o que fazer com ele, e me refiro a qualquer tipo de poder. Não é apenas o fato de ganhar mais, ter um cargo maior, não, existe também um poder nominal, um que é apenas funcional...
Mas, uma vez que um ser com um poder nominal e funcional me fez quase ir às raias da loucura... Fui salva!
A sensação que provei só pode ser entendida por aqueles que, como eu, adoram estudar e sentem um prazer quase que divino quando lêem algo realmente elevado, acima do bem e do mal, aquilo que te leva à catarse. A maravilhosa sensação de reconhecer e ter o “poder” de contemplar uma obra de arte.
Um indivíduo realmente elevado, aquele que transmite sabedoria, que além de ser genialmente brilhante é de uma simpatia boa, de uma simplicidade. Por causa de alguém como essa professora a quem me refiro, não posso crer que todos são corrompidos pelo poder, porque ela, de fato, tem um poder, um poder real, ela detém o conhecimento, a coisa mais cara no mundo, aquilo que não se compra, aquilo que não pode ser roubado. E, eu, ser pequenino diante do trajeto trilhado por essa mulher incrível, tive a felicidade de ser elogiada por ela. Não qualquer elogio, o elogio que te faz ir ao céu, que tira seus pés do chão.
O reconhecimento de um grande esforço. Ela me fez enxergar que eu também detenho conhecimento, em menor escala que o dela, mas, ainda assim o suficiente para, finalmente, entender que eu não posso me deixar abater ou soterrar por qualquer um, porque existem categorias de seres humanos e eu, definitivamente, não estou na categoria dos imbecis.
Obrigada querida Annie por me fazer entender isso...

Ao som de Inverno, de Antonio Vivaldi! Da composição As quatro estações

sábado, 20 de setembro de 2008

Para quem não achava a vovó um amor...

A alegre e brava Dona Dina tinha 77 anos...

Ela era a minha vovó querida,
A pessoa do abraço mais gostoso,
Mesmo porque era muito duro conseguir um abraço seu.
Digamos que seu abraço e seu beijo eram prêmios,
Não por bom comportamento.
Minha avó não gostava de falsidades,
Beijo e abraço só quando sentia uma emoção diferente no seu peito...
Brava... amava loucamente as pessoas... defendia com muita emoção aqueles que amava...
Muitos que foram amados por ela não sabiam disso...
Eu sei quem ela de fato amava...
Amava a Camila ternamente.
- Essa é a neta que vai cuidar de mim quando eu ficar velhinha!
Amava a Cristiane, de maneira estranha, mais amava...
- Essa menina não come, precisa ver isso Flávia, deve ser algum problema na barriga!
Amava a Gina, ah como amava.
- Você não fala mal dela. Ela é minha filha única e se vocês falarem mal dela, eu me vou Amava o Tony.
- Coitado Flávia, a gente precisa ajudar ele. Ele tem bom coração!
A brava Dona Dina chorava muito raramente,
Mas ficava muito chocada com as “maldades dessa gente moderna”.
Chorou quando a neta mais velha passou no vestibular da faculdade mais concorrida do país.
- Sempre foi inteligente minha neta, quando era pequena não queria boneca...
Chorou quando levou sua irmã querida para fazer hemodiálise.
Chorou quando a mesma irmã faleceu numa segunda-feira de carnaval.
Chorou quando uma doença estranha impediu-lhe de se movimentar coordenadamente
Ela dizia com toda força: “Eu odeio essa vizinha”
A vizinha teve câncer e ela levou-lhe comida até o dia da morte.
Velou pela coitada até o último instante...
Minha avó não sentava: Sentar para quê? Oh geração de gente cansada essa sua!
Dormir?
Só depois de meia-noite, porque antes era cedo demais.
Era muito religiosa...
A pessoa mais católica que conheci, talvez, mais que o padre!
Numa tarde de domingo, no mês de setembro, ela se foi...
Uma semana antes do seu aniversário...
Contrariando minha superstição, ela faleceu em setembro, não em agosto.
(Mas sei que começou a ficar doente em agosto!
Ninguém fica doente em setembro.)
Minha última recordação...
Antes de ficar doente, eu estava de férias.
Assistíamos aos jogos Panamericanos do Rio...
- Ai Flávia essa gente deve estar morrendo de frio dentro dessa piscina! Que coragem!
- Eu posso comer só um docinho né? Esse café com adoçante é muito ruim...
Ainda bem que eu deixei você comer o doce e tomar o café com açúcar.
Eu só queria que você nunca tivesse ficado doente...

Há quem ache que estou sofrendo pouco com a morte da minha avó...
Minha avó não morreu no dia 7 de setembro, às 17 horas.
Minha avó vinha morrendo continuamente há um ano...
Quanto ao meu sofrimento, nunca saberão o que é a minha dor...
Ela não é externa, nunca foi.

Vovó querida, até o nosso reencontro!
Você não gostava de “eu te amos”, assim à toa.
Mas esse não é à toa...
Eu te amei intensamente todos os dias da minha vida, porque ter sido criada por você e pela minha tia foi um privilégio, um presente que minha mãe me deu.

Te Amo!

domingo, 14 de setembro de 2008

Ensaio Sobre a Cegueira


Imagine que de repente, enquanto dirige, no meio do trânsito caótico, você simplesmente deixa de enxergar. Não só não enxerga, como ao contrário da cegueira tradicional, em que o indivíduo mergulha em uma escuridão, ele está dentro de um mar de leite... Tudo é claridade, não branca, mas creme...
É uma epidemia de cegueira. De repente a sociedade deixa de ser aquilo que todos conhecem por sociedade, os cegos precisam se adaptar e por isso elaboram um nova maneira de viver em conjunto. A princípio, como em qualquer caso de epidemia de doença grave, a atitude do governo é isolar os doentes para evitar o contágio. Mas, não há como conter a epidemia.
Confesso que não li o livro, por isso não tenho como analisar a obra enquanto adaptação, por isso vou encarar como se o filme existisse sozinho dissociado do livro.
A atitude de isolar os indivíduos cria uma série de problemas, uma nova sociedade é criada. Sociedade para Rousseau é um contrato social, as pessoas vivem juntas e por isso criam convenções que são adequadas para o convívio em grupo. Essas convenções funcionam bem do ponto de vista que evita que as pessoas confrontem-se o tempo todo. Leis são criadas e respeitadas por todos para um convívio harmônico. Todos nós vivemos assim, e, segundo Rousseau, isso não é bom já que tira o homem do seu ambiente natural. Para ele, muito das confusões que existiam já em sua época advêm do fato de que o homem vive de maneira artificial, a cada segundo, cada pensamento seu é podado por uma convenção e é importante respeitar aquilo que é combinado. Afinal, é para isso que foram criadas as leis, para manter todos os indivíduos no “cabresto”.
No filme, os cegos isolados têm que criar novas convenções. É interessante notar que quando se vêem em um lugar, presos, unidos por uma desgraça, a atitude de algumas pessoas é romper com o contrato social. Pois, se o Estado os aprisionou sem condições mínimas de sobrevivência, o Estado quebrou antes o contrato.
Vemos na tela uma nova sociedade em formação, não há leis pré-definidas, aquelas usadas fora da quarentena deixam de ser as leis válidas. Logo vão estabelecer um preço para as coisas e começam a se corromper.
O diretor Fernando Meirelles consegue causar no público parte da sensação sentida pelas personagens. O excesso de cenas muito claras deixa a visão completamente atrapalhada, a sensação de angústia é crescente... Medo, nojo, horror... tudo isso cresce só cresce ao longo do filme. Às vezes, temos a sensação de estarmos também perdidos, não sei se propositalmente, mas, as cenas se seguem sem nenhuma explicação, tudo simplesmente “acontece”. Apenas no final, surge uma voz “over” para dar um rumo à narrativa.
Muito legal também é a idéia dos personagens não terem nome, pois não é “o fulano” ou “o ciclano” que é capaz de fazer aquele tipo de coisa, ou com os quais acontecem aquelas coisas. Aqueles acontecimentos estão em nossas vidas todos os dias. Imagine que você assiste à TV e estão dizendo: Fulana esquarteja filhos!
Agora imagine que você não sabe o nome da fulana e que a notícia é a seguinte: Mãe esquarteja filhos! É diferente não é?
Sim, a diferença está no fato de que passa a existir a possibilidade de que qualquer mãe pode cometer uma barbárie dessas contra seus filhos, não é uma história isolada, não há justificativa, “ela era má e por isso fez isso”, não, ela fez e qualquer outra mãe poderia ter feito. Não se trata de um indivíduo isolado. Trata-se de saber por que o ser humano é capaz de fazer isso com outro, tão humano quanto ele. Por que um cego é capaz de fazer mal a outro cego que se encontra exatamente na mesma situação que ele? O que leva uma pessoa a ignorar aquilo que há de semelhante no outro? A sua humanidade.
O filme foi muito acusado de ser “pesado”, realmente o é. Mas, não acho que Meirelles tinha uma outra idéia. Não dava para fazer algo “leve”, o assunto é cegueira.
“Em terra de cego, quem tem um olho é rei.” Será? Julianne Moore tem dois, mas vocês verão que não se trata de ser rainha, e que na verdade quem tem o poder é o mais forte, o mais bem armado e, principalmente, o “Mal”. Coisas da modernidade.
A pergunta que fica quando termina a película é: Eles estão cegos, mas será que todos nós não estamos?
O que será necessário nos acontecer para que vejamos que caminhamos para um futuro sem humanidade? Onde foi parar o afeto?



segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Adeus...

Hoje, cada estrela parece uma lágrima... Ainda que esteja furtando uma frase do Renato Russo, ela define muito bem meu sentimento hoje...
As lágrimas, a dor, a saudade, a angústia estão por toda parte... Meu coração parece que vai rachar de dor... Uma dor infinita, lancinante.
Porque quando eu era pequena, ela me carregava de cavalinho porque eu era muito magrinha e não agüentava subir a ladeira...
Porque ela tirou comida da própria boca para me dar...
Porque ela me dava banho com caco de telha para que eu não ficasse encardida...
Porque ela tinha o pé mais bonitinho do mundo e nós todas saimos a ela...
São vários os motivos... tantos e impossíveis de organizar...
Mas, é simplesmente porque ela foi quem me criou, me levou na igreja, segurou minha mão nas noites difíceis, me deu uma formação sólida e acreditava em mim plenamente, incondicionalmente e sempre...
Vovó querida, que Deus guarde você no melhor lugar que ele tiver... Que as melhores instalações do paraíso estejam reservadas a você e a minha querida tia...
E apesar da tristeza, não me sinto só... Eu nunca estarei só!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O Escafandro e a Borboleta...

Confesso que jamais tinha ouvido a palavra ‘escafandro’, vestimenta impermeável e hermética, provida de um aparelho respiratório, e própria para mergulhos demorados... De fato, isso descreve bem condição quase irremediável de Jean Dominique Bauby, ou Jean-Do...
O editor da Revista Elle francesa sofreu um acidente vascular cerebral, também conhecido pela sigla AVC, aos 42 anos, enquanto mostrava seu belíssimo carro conversível ao filho. Quase tudo ficou paralisado, exceto por uma pequena parte, o olho esquerdo. Sua inteligente médica conseguiu desenvolver um método dele se comunicar assim mesmo. Um amigo observou muito bem que essa só poderia ser uma invenção francesa, pois os franceses falam tanto que deram um jeito de falar até usando um único olho...
Jean-Do escreveu o tocante livro O Escafandro e a Borboleta e é baseado neste livro que Julian Schnabel fez a sua adaptação para o cinema. Temos portanto o ponto de vista do narrador-protagonista Jean-Do.
A voz ‘over’ surge no início do filme... Mas, mais importante que a voz ‘over’ do narrador é o olhar... Um olhar embaçado, que se abre e não sabe o que aconteceu, um quarto de hospital, a tentativa desesperada de ao menos falar. Bauby permanece imóvel dentro do seu escafandro. Uma vida paralisada...
Lembrou-me demais o Mar Adentro de Alejandro Amenábar, com a diferença que Bauby queria viver, pois descobriu que mesmo com apenas um olho é possível se comunicar com os outros...
O filme é muito sensível, tocante. Aliás, este é um fenômeno moderno, necessitamos tanto de histórias inspiradoras para continuar a nossa própria. Há ainda uma outra característica essencialmente moderna, na classificação de índice de um filme (drama, aventura, comédia, romance etc.), algo atrai o público de hoje para os filmes que contam com a seguinte denominação “baseado na história verídica de fulano”. O contrato com o real é um atrativo a mais, se não absoluto para vermos o filme, lermos o livro, assistirmos a novela etc. Claro que esse aspecto está ligado ao fato de buscarmos histórias inspiradoras, talvez seja bom saber que a história é real para simplesmente sentir o prazer de ser um humano perfeito e chegar à conclusão que vivemos a procurar pêlo em ovo mesmo. Afinal se o cara tem vontade de viver e escreveu um livro incrível com apenas um olho, por que eu, com minhas duas mãos, meus dois bons olhos, não poderei escrever um livro ou fazer qualquer coisa que seja absolutamente maravilhosa?
Na verdade, talvez seja apenas a velha magia da arte só que se readaptando a um mundo cada vez mais órfão de motivos. Na arte, podemos viver uma vida que não é a nossa, ter uma vontade que não é a nossa, por isso o grande sucesso do cinema americano e seus “happys ends”, algo artificialmente construído para fazer o mundo acreditar que o padrão americano é o melhor, afinal os EUA não podem deixar de ser a terra das oportunidades. No cinema europeu, temos uma visão um pouco diferente, a tentativa de inovar, de transformar, mesmo como no caso de O Escafandro e a Borboleta, que é uma história real, um filme em uma obra de arte. Essa não é uma regra, pois nem todo o filme europeu consegue ser uma obra de arte. Mas, certamente, por uma série de questões que não cabe aqui discutir, o compromisso com a arte é outro.
O filme do diretor Julian Schnabel não só transforma o livro em um filme, mas faz mais do que isso coloca elementos próprios do cinema que tornam a história ainda mais tocante, os flash-backs do protagonista são uma contraposição dolorosa ao estado presente do personagem no filme. Os travelings (cenas em que a câmera segue o personagem em um carro, trem etc.) são a antítese do estado de Jean-Do, a que se notar aqui a boa influência do clássico Acossado do diretor Jean-Luc Godard. Entre as cenas, Jean-Do sempre é mostrado dentro de um escafandro mergulhado no mar, revelando como tudo à sua volta continua exatamente igual, a vida segue seu curso, ele é que está preso ao seu escafandro.
Um filme todo feito de duplos como o próprio nome sugere, a vida do protagonista que foi cortada ao meio; com a vida perdida ficaram a mulher amada, o glamour, o movimento; na vida que restou, ficaram a ex-esposa, os filhos, a paralisia, apareceu uma ortofonista que tornou seu livro possível. A grande questão de filmes como este sempre é o que de fato acontece com alguém que passa por este tipo de tragédia. O velho clichê não deixa de ser repetido, afinal após o acidente Jean-Do passa a ser uma nova pessoa e os acontecimentos passados tão recentemente, são agora quase que mágicos. A convivência com a família, o abraço do filho, do pai e até a ex-esposa são supervalorisados, tornam-se quase que sagrados. Mas, além da velha moral das fábulas, “Dê valor à sua vida porque você nunca sabe o dia de amanhã”, vemos que o protagonista não se amaldiçoa pelo que aconteceu e pela falta de responsabilidade com sua vida antes do acidente. Ele busca novos motivos para continuar vivendo e é deliciosamente irônico com seu estado atual, acha graça da saliva que escorre dos seus lábios inertes, fica dizendo a si mesmo que não é justo olhar as médicas bonitas sem poder fazer nada.
Ao final do filme, ficamos com a sensação que na verdade o filme é sim uma celebração da vida não uma lamuriação.
A metáfora da borboleta ganha um novo sentido.
Destaque para as incríveis atuações do protagonista Mathieu Amalric (Jean Dominique Bauby) e da coadjuvante Emmanuelle Seigner (Céline Desmoulins).