domingo, 27 de setembro de 2009

A cena independente...


Sexta-feira foi um arraso!
A edição de setembro da festa Bang! foi sensacional...
Blood Shake destruiu com um set pesado para ninguém botar defeito, como gostamos de dizer “eles desceram a lenha”.
Fizeram um set super bem humorado, cheio de anos 90, maximal e o famoso funk sempre presente nas apresentações da dupla. Laka e Zero destruíram mais uma vez e não é por acaso que a partir da próxima edição a festa ocupará todo o Vegas, não mais apenas o basement, se bem que eu desconfio que do basement eu não saio por nada... Afinal, é onde Zero e Laka tocarão.
Tenho encontro marcado com a dupla logo menos, já que eles são os convidados super especiais para edição de outubro da It’s alive, a festa que já começou como um sucesso e segue os passos da famosa festa Crew da promoter e dj Lalai. Tem tudo para ser, se já não é, uma das melhores festa da cidade.
Muito bom saber que tem tanta gente boa fazendo música de maneira independente. Gosto de pensar que nós consumimos o que a maioria não consome, quando digo “nós”, me refiro ao tantos, que como eu, admiram o trabalho independente, gostam de como ele é feito e principalmente de como é divulgado.
Sabemos que tudo é bom e que um dia passa a ser produzido em escala comercial teve um início bem modesto. Às vezes é só a coragem de alguém muito capaz, mas que ainda desconhece sua capacidade, de criar, de colocar uma série de pensamentos em prática. Alguém em um quarto qualquer em um cantinho da cidade, seja na Zona Leste, ou onde quer que seja, um indivíduo com uma idéia na cabeça se senta e busca meios de colocar seus pensamentos em ação.
É assim que nasce a maioria das grandes ideias, da vontade de uma pessoa.
Essa talvez seja a aptidão mais interessante do ser humano, a capacidade que tem de produzir e mudar o mundo à sua volta com pequenos feitos.
De início, somos tachados de estranhos. Somos os fulanos que curtimos um som diferente, num inferninho, apreciamos aquilo que pouca gente sabe que existe, então saímos do inferninho e partimos para os grandes lugares, aqueles de projeção nacional, muitas vezes mundial. Então, já não somos estranhos, passamos a ser apenas mais um. Somos mais um a gostar daquilo que todos gostam.
Acho muito engraçado o fato de que justamente nessa etapa, quando finalmente chega o reconhecimento, perdemos o interesse...
Sabe por que perdemos o interesse?
Porque nós sempre soubemos que aquilo era bom, nós víamos além. Ficamos felizes pela descoberta do resto do mundo, torcemos pelos nossos queridos que alçam vôos maiores, mas quando aquilo que amamos torna-se um produto a ser consumido por muitos, torna-se pasteurizado, nós simplesmente procuramos algo novo para amar...
Somos conhecidos como estranhos, nerds, descolados, geeks, undergrounds, alternativos... Procuram vários rótulos para nos intitular, mas a verdade é que não temos rótulo, nós somos apreciadores daquilo que é novo, daquilo que guarda a fagulha de coisa mágica, daquilo que mostrar que o ser humano é capaz de se sobressair mesmo dentro de um sistema que o sufoca.
Lembro agora do termo utilizado por Ezra Pound, o artista era para ele “a antena da raça”, ele era fascista, por isso falava nestes termos, mas mesmo estando equivocado, como a história provou, ele sabia sobre o que estava falando quando o assunto era arte.
E eu adoro pensar que eu, juntamente com meus amigos “diferentes”, podemos reconhecer estas anteninhas por aí...
Em um filme maravilhoso, Amadeus, que conta a trágica história do gênio Mozart, dirigido por Milos Forman, há um personagem, o famoso maestro Salieri (interpretado lindamente por F. Murray Abraham), ele diz mais ou menos o seguinte: “Oh Deus! Por que me destes o poder de distinguir o belo e não o de produzir o belo?”
Salieri também era muito bom, mas não era um gênio como Mozart, mas ele podia enxergar a genialidade de Mozart e isso o exasperava, ainda que só ele visse as qualidades com clareza suficiente. Mozart foi considerado em seu tempo, como a maior parte dos grandes artistas de que temos notícia, um estranho, um maluco.
Ao contrário de Salieri, me sinto muito feliz por conseguir separar o joio do trigo. É gratificante, é como ter um pequeno dom. Nem sempre dá certo, oras, somos todos humanos.
Além do mais não temos muita clareza sobre o quanto algo é bom, ou se estamos certos ou errados, só sabemos que gostamos e que vemos algo que é ao mesmo tempo novo e belo em lugares pouco prováveis, então passamos a admirar sem nos preocupar muito com onde isso vai dar... A graça é que não estamos preocupados com isso, só estamos seguindo os nossos instintos...
Estamos indo atrás daquilo que amamos.

domingo, 20 de setembro de 2009

Besteira...








Engraçado como a maior parte das coisas que consideramos importantes são bobagens. A noite mal dormida por causa da preocupação com algo no serviço, o medo de ir mal no trabalho da faculdade, o pavor de errar no look para determinadas ocasiões, o constrangimento injustificável de se dizer a coisa errada, as comparações bobas que fazemos com algumas pessoas.
No final, dá tudo certo não é? Como na música... “Don’t worry, be happy”
A única coisa que importa é a liberdade não é? Ser livre, estar livre, sem amarras...
Entendo que para alguns conforto é prender-se. Eu não sou assim, não posso ser...
Venho aprendendo dia após dia a como não me preocupar, tem dado certo. Estou tão mais feliz, minha vida tem sido tão boa, tão cheia de momentos agradáveis...
Às vezes a gente erra.
Nessa semana, perdoei do fundo do coração alguém que me magoou profundamente, uma situação estranha com gente me maltratando fez eu me lembrar de como é ruim ser maltratado, xingado, então eu perdoei... Não da boca para fora, de verdade.
Passei por situações difíceis suficientes para saber que de toda situação, por mais negativa que seja, tiramos algo de positivo para nossas vidas... Foi pensando assim que consegui me tornar o ser humano que eu sou.
Enfim, a gente erra muito para aprender as coisas. Cada um tem seu modo de pensar não é?
O inferno para mim pode ser a felicidade do outro, que bom que a vida é assim, pois dessa maneira há possibilidade de todos sermos felizes...
Sabe, eu gosto de Deus... eu acredito nessa força superior que rege o universo. Mas eu aprendi, também vivendo, que corajoso mesmo é aquele que é bom assim de graça, sem o medo do castigo divino, ou do olhar de algum ser superior.
Só que, pela minha cartilha, não há certo ou errado... Todos podemos tudo. O único limite entre o que é certo e errado é quando ignoramos a condição humana do outro, desprezando, humilhando, ridicularizando... Tudo isso é besteira.
Gente fina, como dizem, não liga para o que os outros falam, apenas vive e vai passando, deixando que os outros fiquem para trás ou sigam consigo.
Só somos seres humanos melhores depois de muitas coisas sofridas.
O que importa de verdade na vida são as pessoas que amamos, o “bom dia” dos entes queridos, o olhar amoroso daqueles que nos admiram, as lembranças boas daqueles que partiram, ir a uma exposição e ficar feliz porque a arte vence a morte, ouvir uma boa música e lembrar que nada é por acaso, que tudo no universo está em círculo... São essas coisas que importam, o resto? O resto é bobagem.
Por falar em arte, essa semana fui à abertura da exposição Virada Russa, que trouxe quadros de Kandínski, Maliévitch, Chagall, entre outros, do Museu Estatal de São Petersburgo. Entre os mais famosos, estão o Círculo e o Quadrado Negro, além da Cruz Negra de Maliévitch.
Dei a sorte, graças ao meu amigo querido Felipe, de ir na abertura oficial, da qual participara apenas convidados. Tomei um monte de Stolitchnaia, saboreei alguns pratos típicos, mas me deliciei de verdade foi com a belíssima exposição, tão bem organizada pelo curador Rodolfo de Athayde. As obras ficaram expostas de maneira bastante coerente com os movimentos de vanguarda russos... Uma felicidade que essa exposição tenha vindo até nós, já que nem todos podemos ir até a Rússia.
Quem puder ir e tiver interesse na maravilhosa arte russa, a exposição fica até 15 de novembro no Centro Cultural Banco do Brasil, um casarão lindo bem pertinho do Pátio do Colégio. Eu devo voltar lá quantas vezes me forem possíveis... Tão mágico saber que Maliévitch e tantos outros sobrevivem através da arte que criaram... Foi um dia muito feliz, mesmo. Encontramos com a Elke Maravilha que é uma graça... muito simpática.
Na semana anterior, eu fui a uma noite de autógrafos, o professor Luis Mauro de Sá Martino lançou oficialmente seu livro Teoria da Comunicação. Uma simpatia o professor, quem quiser se divertir com as sacadas inteligentes dele é só acessar: alquimiadoverbo.zip.net
Já falei sobre Schiller aqui, certeza que sim, eu devo falar dele o tempo todo...
Então, aquilo que ele dizia sobre a arte, ele tem razão... Para mim, 100% de razão.
Pena que seja tão difícil ser plenamente feliz em um mundo tão desigual.
Já ia me esquecendo... Minha revista preferida, a Caros Amigos, publicou minha carta...
Resumindo, tive uma semana maravilhosa, que fechou com chave de ouro com coxinha do BH às quatro da madruga e café da manhã reforçado no Athenas... A-do-ro!
Flaviuska

sábado, 12 de setembro de 2009

Maldade...

Fiquei tão triste hoje... triste infinitamente...
Pela primeira vez na vida escrevi meu nome completo em algum lugar, foi no post anterior a este, em homenagem à minha querida vovó, e alguém usou meu nome indevidamente... querendo me prejudicar. Eu não sou um anjo, ninguém é afinal...
Mas eu não merecia uma coisa dessas.
Enfim... só peço que me deixem em paz porque eu não quero o mal de ninguém, essa foi a primeira vez na minha vida que vi alguém desejar que eu desaparecesse do planeta...
Se é isso o que querem, deixem a preocupação de lado... me ignorem, finjam que eu morri... acabo de sumir. Desejo toda a felicidade do mundo seja para quem for que seja do bem...
Mais triste ainda por terem feito isso comigo bem no post tão lindo que escrevi para a vovó querida...
Outros desejam minha presença, vou me dedicar a esses que querem meu bem e anseiam pelo meu amor.
A triste banalidade do mal... até aqui...

sábado, 5 de setembro de 2009

A neta e a avó

A menina devia ter uns quatro anos...
A avó lhe fez comida, a mistura da neta era um ovo e a da avó um pedaço de carne, um pedaço pequeno. Eram arroz, feijão, farinha e uma misturinha.
A neta vendo a mistura da avó resolveu que também queria um pedaço de carne, como não havia um outro pedaço de carne, a avó tirou o pedaço de carne que ela já mastigava de dentro da boca e deu à neta.
A neta comeu o pedaço de carne da avó e o ovo, de forma que a avó ficou sem mistura, mas ela não se importou...
Ela abraçou a neta e gostou que ela tivesse comido a carne...
A neta nunca poderá esquecer este dia, ainda que viva mil anos.
À neta foi concedida a dádiva de viver e ser criada pela gentil senhora por 27 anos, num 7 de setembro, a avó partiu, uma doença estranha a levou sem essa nem aquela.
Um dia a neta e a avó estavam assistindo TV, então a neta olhou para a avó e achou que ela estava fazendo uns movimentos muito estranhos, língua, boca e braços se moviam de maneira descompassada e involuntariamente.
A neta preocupou-se. Chamou a irmã que veio passar a noite com a avó até ela chegar.
Fazia um inverno muito rigoroso naquele ano de 2007, então a neta pensou que podia ser por frio que avó fazia aqueles movimentos.
Comprou um aquecedor.
Não adiantou, não era frio, de certo não era...
A neta chorou, chorou, chorou...
Pediu a Deus encarecidamente que não fosse nada e que tivesse cura com remédio de farmácia, tomado de oito em oito horas por alguns dias.
No hospital público do bairro onde moravam ninguém sabia dizer o que causava aquele descompasso na avó. A neta assustou-se, uma doença que no hospital não conheciam, só podia ser algo bem ruim.
Levou a avó ao Hospital das Clínicas, lá, já na porta, um médico muito jovem perguntou:
- Ela está com Coréia?
A neta não sabia, nunca tinha ouvido falar em uma doença chamada Coréia.
A neta e a avó ficaram no hospital durante todo um dia, saíram de lá por volta de 21 horas, não tinha jeito, essa tal Coréia não se curava com remédio de farmácia, na verdade aquilo não tinha cura, mas a neta não sabia e o médico também não quis dizer para não magoar.
A avó foi perdendo a memória pouco a pouco, um dia a neta entrou e ela a olhou com um olhar vago, que não estava mais aqui neste mundo... Os olhos olhavam, mas não reconheciam a neta. Quem seria aquela? Eles pareciam perguntar.
Passou a chamar a neta de nomes variados sem ter idéia de que aquela era neta que ela criou, a neta a quem ela transmitiu tudo de melhor que podia.
Apesar de ser muito conhecida pela braveza, pela falta de paciência, uma palavra para definir a avó seria “finura”.
A avó apesar de ter sido faxineira e depois passadeira, não saber ler nem escrever, era fina. Gostava de música clássica, porque é suave, ela dizia. Gostava demais do som do acordeão porque lembrava sua terra.
Jamais falava palavrão.
Nunca tinha as mãos sujas.
Sempre usava uma peça vermelha, sua cor preferida.
Sempre passava perfume.
E sempre recomendava, “tem que passar blush sempre”.
Mesmo um ano após sua morte, suas roupas têm o mesmo cheiro de lavanda.
Não sabia ler nem escrever, é verdade, mas sempre admirou as letras e achava muito bonita a profissão de professora, porque, para ela, ser professor era ter quase um dom divino, é o dom de desvendar aquele universo que ela não compreendia.
Eram a avó, a tia e a neta, que moravam juntas.
A tia morreu...
A avó sobreviveu porque precisava ficar com a neta.
A avó se orgulhava tanto de nunca ter feito uma cirurgia na vida, tinha horror a hospitais.
Quando viu que estava fadada a ir e vir de hospitais, tratou logo de morrer, porque ela sabia que aquilo não era para ela.
A avó nem conseguia entender muito o que de fato ela havia feito pela neta.
A neta cresceu achando ser professora uma coisa muito bonita mesmo e fez Letras na faculdade, estudou todas as artes na melhor universidade do Brasil...
Aprendeu que ensinar é mesmo um dom, descobriu que a avó tinha razão, o saber mudar a vida das pessoas.
A tia sempre dizia à neta, que também era sua sobrinha, que o saber é a única coisa que nunca será roubado de quem o tiver.
A neta e sobrinha ouviu atentamente as indicações dos dois serezinhos que a criaram com tanto amor e sacrifício. Juntou os sonhos das duas, meteu-os na cabeça e traçou um objetivo e foi assim que uma analfabeta e uma semi-analfabeta mandaram alguém para Universidade de São Paulo.
Se para elas, a vida foi muito difícil por não ter o domínio das letras. A neta tratou de fazer das letras seu ganha pão... Estudou e se aprimora a cada dia, tornou o sonho das parentes amadas realidade, tornou-se uma pessoa refinada sem esquecer jamais suas origens.
Daqui dois dias, faz um ano que avó morreu, seu espírito deixou o corpo doente...
Apesar da dor cruciante que a neta sente, ela sabe que a avó não morreu porque parte dela vive na neta, assim como viverá nos filhos da neta e assim sucessivamente por toda a eternidade.
A neta chora quando ouve acordeão ou quando pega o livro que avó folheava porque achava bonito. Sempre perguntava à neta sobre o que falava aquele livro. O livro fala sobre os arquétipos literários, de um autor russo... Meletínski.
Desde cedo, a neta fora desafiada pelas pessoas que achavam que pobreza era sinal de incapacidade... Hoje, até russo a neta fala...
Sempre existiram pessoas para dizer que ela não era capaz e hoje a frase de honra da neta é: Eu sou capaz de tudo, de qualquer coisa e ninguém pode me provar o contrário.

Eu, a neta Flávia, agradeço por demais a minha avó, Erundina, pelos infinitos pedaços de carnes que tu me destes na vida, mas sobretudo por me ensinar e me mostrar que eu sou capaz de comprar todos os pedaços de carne que eu desejar comer.

Flávia, neta de Erundina e sobrinha de Raimunda, com muito orgulho.



Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade