sexta-feira, 6 de março de 2009

O primeiro ano de faculdade...

Começo de ano é uma complicação, a bixarada eufórica quer fazer tudo para ontem. O professor fala: Leremos Watt para a próxima aula.
Quando ela cerra os lábios, três ou quatro malucos já estão na biblioteca e uma dúzia na xerox. Eles querem tudo para ontem.
As filas são quilométricas para tudo. A cantina fica sempre cheia. Os ônibus abarrotados de pobres coitados desesperados para ocupar os bancos tão suadamente conquistados da gloriosa Universidade de São Paulo.
As aulas magnas de todas as unidades ficam com lotação máxima. É preciso ver o ídolo de perto. Não é sempre que se pode ver e tocar (para os mais afoitos) João Adolfo Hansen, Betina Bischof, Ismail Xavier, Vanderlei Bagnato, (com sorte) Alfredo Bosi. É quase como tocar o céu por um segundo.
Acho bonito a euforia inicial... Me vejo neles... Não se trata nem do meu “eu” antes, trata-se do meu “agora”.
Eu ainda, por incrível que pareça, estou na fase do “quero mudar o mundo”. Será que vou querer até quando? Sempre me pergunto isso...
Outro dia, no filme Shortbus, ouvi uma frase incrível de umas das personagens:
- Antes eu queria mudar o mundo, agora eu só quero sair daqui com um pouco de dignidade.
Eu quero muito mais... Eu ainda quero fazer alguma coisa por este mundo aqui, deixar algo válido. Hoje, já penso que apenas apontar e perceber as coisas é alguma coisa, é mais do que a maioria consegue.
A USP fez isso por mim, me mostrou que sonhar é importante, sonhar é o que nos move na direção do alto, para o belo, o diferente, o além...
Para a bixarada, meus parabéns, desejo que a USP faça por cada novo bixo aquilo que fez por mim, mudou minha vida.
Eu vou continuar rezando pelo momento que eles vão se tocar que não precisam ser tão desesperados. Vão descobrir que a média é 5, que tem recuperação, que na USP não tem DP, afinal nós não pagamos, nós trancamos e fazemos de novo...
Não vou dizer que será fácil porque não será... Estudar na USP é matar um leão por dia. Se você imagina que passar no vestibular foi o auge das conquistas produtos de suas incríveis proezas juvenis, você descobrirá que a sua grande proeza será cumprir todos os créditos necessários para se formar. Incluindo as malditas matérias obrigatórias.
Vai descobrir que quando se estuda na USP é preciso ter uma idéia original para escrever um trabalho, que este trabalho tem que estar nas “normas da ABNT”, que você nem sabe o que é no primeiro ano.
No meu primeiro dia de aula deste ano, minha querida professora Elaine Sartorelli disse que eu sou uma estudante profissional. Alguns riram... Acham graça no fato de eu gostar tanto de estudar... Fazer o que? É a minha paixão.
Na verdade, ela me fez um grande elogio, sabe o que isso quer dizer?
Que aprender é comigo mesmo... Estou sempre aberta a aprender e sou estudante incansável. Após uma hora dentro de um ônibus lotado, num calor que 30 graus, ainda tenho ânimo para sorrir porque finalmente o ar da USP entra em meus pulmões. O cheiro do verde, do prédio antigo e a mesma velha e boa direção de pensamento. Estamos um passo à frente sempre, repudiamos o pensamento dominante.
Para vocês que passaram no vestibular e estão tão empolgados com a novidade que mal podem respirar, segue uma frase que figura nas camisetas vendidas nas lojinhas da universidade:
Estudar na FEI, R$ 1.500 mensais;
Estudar na Mackenzie, a partir de R$ 800 mensais;
Estudar na Metodista, a partir de R$ 800 mensais;
Estudar na USP, não tem preço porque tem coisas que o dinheiro não compra.
Bem-vindo!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Revolutionary Road

A realidade é esmagadora...

Aos vinte e poucos anos, nos sentimos donos do mundo. Todos conhecemos aquela maravilhosa sensação de se poder realizar qualquer coisa, uma porção de gente diz com grande orgulho: Você tem a vida toda pela frente.

E não é que tínhamos mesmo...

Mas, que tipo de vida escolheremos ter? Será que há como escolher?

Este é o mote para o magnífico filme de Sam Mendes “Foi Apenas um Sonho” ou, no original, Revolutionary Road.

O casal Wheeler se conheceu exatamente no auge da juventude, April (Kate Winslet) apaixonou-se justamente pelo vislumbre de um jovem que seria diferente de todos que ela já havia conhecido. Bastou um sorriso e a sinceridade ao dizer que não fazia idéia do que seria para o jovem Frank (Leonardo Di Caprio) conquistar aquela que se tornaria sua esposa.

Da cena do encontro, um corte para a realidade do casal alguns anos após o primeiro encontro. Instalado confortavelmente em uma casa, em um lindo vilarejo de Connecticut, o casal passa os dias contando-os vagarosamente.

No entanto, a mediocridade e o conformismo não são para todos (ainda bem!), a jovem esposa se cansa e propõe ao medíocre marido, empregado em uma fábrica de aparelhos, dos quais ele nem entende muito bem, que se mudem para Paris. Eles e os dois filhos.

Vou parar por aqui com a narração da história, se não acabarei por revelar muito do filme.

Envolvida que estou até a raiz dos cabelos com a obra do escritor e dramaturgo russo, Anton P. Tchekhov, não consigo evitar a comparação... Tchekhov estava entre nós no fim do século XIX e início do XX, não é tanto tempo assim... Mas, lá se vão cem anos, um século e uma imensidão de quilômetros nos separam do universo dele. No entanto, parece que a sua obra trata da mesma matéria que o filme de Sam Mendes, adaptação do livro de Richard Yates: Por que a realidade nos sufoca? Por que o dia-a-dia tira-nos a vontade de viver? Por que é tão difícil para alguns aceitar a mesmice?

Nossa vida é um repetir interminável de seqüências e simplesmente não nos damos conta. Enquanto escrevo isso, vem à minha cabeça vários escritores, que desesperados tentaram fugir da mesmice. Aliás, a arte é e sempre foi a tentativa máxima de escapar deste plano para outro superior, libertador...

O casal do filme se vê tragado por aquilo que é esperado, jovens se casam, têm filhos, compram um casa, vêm TV juntos, dormem juntos. Cabe à mulher acordar bem mais cedo que o marido para preparar um lindo e perfumado café da manhã para o macho provedor do lar, preparar os filhos para escola, passar o dia a arrumar a casa e a preparar a janta, espera-se dela também que esteja disposta para transar com o marido à noite...

Muita coisa nessa lenga lenga horrorosa mudou, as mulheres trabalham. Afinal, já queimaram seus sutiãs em praça pública por este direito. Parando bem para pensar, salvas as gloriosas exceções, o que mudou para mulher fora isso?

O macho continua a esperar as mesmas coisas dela. Cabe a ele apenas prover o lar, dar o dinheiro, em outras palavras. Há duas coisas que quase todos os homens fazem para provar que são homens: Comer suas esposas e às vezes algumas outras mulheres e sustentar uma casa. Isso é ser homem? Aquela figura que eu descrevi há pouco é o que é ser mulher?

Ficam as perguntas para quem queira responde-las. Mas, me apavora que as coisas continuem tão iguais tantos anos depois das primeiras denúncias de que havia algo errado.

Mestre do retrato dessa vida cansativa, Tchekhov tratou de todas as formas de repetição e da espécie de abismo que parece tragar todos nós para dentro de si.

Por que um jovem promissor torna-se o esposo barrigudo que assiste ao jogo no domingo enquanto bebe cerveja?

Como conseguir enxergar além?

O mundo capitalista, que se propõe um regime de liberdade, faz isso conosco. Quantos de nós jamais quis um emprego em que se bate o opressor e perturbador “cartão de ponto” às 9h, entrada; 13h, saída para o almoço; 14h, retorno do almoço e 18h, saída?

Há como fugir disso?

Alguns espertos “porcos capitalistas” (adoro essa expressão) dirão:

- Há sim, sendo rico, você não precisa bater cartão.

A minha resposta é: Você, caro tolinho, não bate o cartão físico, mas tem um cartão abstrato, imaginário, que é tão palpável como a bosta que eu tenho que encostar naquela maldita máquina que faz “pi” todas as manhãs.

Temos aí nome do nosso abismo então: CAPITALISMO.

É atordoante que tantos jovens promissores sejam sufocados por essa desgraça de sistema econômico.

A pergunta que todo parvo faz é: Você enxerga uma saída?

A resposta: Não... eu não enxergo uma saída, mas só o fato de eu saber, de eu notar que há algo de errado já me torna infinitamente melhor que muita gente.

Tchekhov disse simplesmente que não cabia a ele o poder de resolver as questões que propunha, cabia a ele apenas colocar o problema da maneira correta.

Infelizmente, para aqueles que não são “gado” há poucas alternativas: Pode-se viver, apesar de tudo, lutando por aquilo em que se acredita; adequar-se ao sistema, ou fugir dele...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Seres humanos!

Era uma vez um grupo de amigos...
Um dia disseram a um destes amigos que ele era capaz de coisas incríveis. Pior é que eu acho que ele meteu isso na cabeça sozinho! Ninguém disse, pobrezinho.
Então, deram a esta pessoa uma sala sem janela (uma lástima), um cubículo na verdade, uma mesa maior e um computador melhor e záz... O amigo mudou seus hábitos e por algum motivo desconhecido passou a se crer, de alguma maneira, melhor que os outros. Por causa de três coisas insignificantes? Como pode?
Como se diz a uma pessoa assim que o que define os seres humanos é o quanto ele é medíocre? Não tem como dizer... o tal nem deve saber o que é mediocridade, tamanha a sua própria.
Para quem tem medo de Deus, o certo era temer tanta mediocridade, tanta pequenez. Eu tenho medo da lei de Ação e Reação. Física!
Todas as noites, eu desejo ser menos medíocre, é só o que eu quero... tenho medo...
Tendo em vista o que disse Bakunin sobre a monstruosidade que o poder faz com as pessoas, eu me vigio...
Infelizmente, os outros amigos acabaram sendo afetados pelo amigo medíocre. A vida tem dessas coisas.Eu desejo que este amigo recupere sua humildade perdida. Talvez tenha sido apenas ilusão, pode ser que a humildade jamais tenha estado lá. Pena! Eu acreditei...

sábado, 27 de dezembro de 2008

Alegria


Parece-me, cada dia mais, que há uma falta de talento de minha parte para conviver com outros sujeitos.
Há em mim qualquer coisa que repele as pessoas, eu as atraio pelo sorriso largo, como gostam de dizer, pelo humor, muitas vezes ácido, mas apreciado por elas. No entanto, sinto que quando se aproximam de verdade de mim, de quem realmente sou, desistem de estar perto e, pior, antes que desistam, eu mesma desisto por medo que o façam antes de mim.
Há certa dificuldade por parte de todas as pessoas do mundo, creio eu, de encontrarem pessoas iguais, aquelas nas quais vêem um espelho, eu conheço alguém assim, em tudo lembra a mim mesma, exceto pela ausência de moralidade, talvez simplesmente seja dificuldade de aceitar que exista de fato uma moralidade, acho que sabe que ela existe...
Enfim, esta pessoa reflete aquilo que de mais guardado há em mim e por vezes sinto-me atraída pelo espelho, mas, uma vez refletida nele e ele refletido em mim, vai-se embora todo o encantamento. Dois repelentes feitos de matérias diferentes. Vejo nele a minha própria incapacidade de ser para alguém mais que uma confidente.
Veja bem, não se trata de incapacidade de entender o humano, eu o entendo. Ah como eu o entendo, até dói... Trata-se de impossibilidade de fazer a tão ansiada troca, aquilo pelo que buscamos todos os dias. Alguém que nos compreenda, gostaria de não ser a única a compreender.
Busco por algo que parece não existir, queria alguém que estivesse em pé de igualdade comigo. Essa afirmação soa tão pedante! Mas não é... Juro! Não é.
A igualdade, se é que existe, penso ser alguém que tenha a me oferecer algo na mesma altura que eu tenho para oferecer. Algo que não é a mesma coisa que eu ofereço é outra coisa, mas tão boa quanto e da qual eu precise desesperadamente.
Pensando na vida da escritora Jane Austen, fico me perguntando quais os motivos de tudo estar tão repugnantemente parecido com sua época... Deve restar a alguém como eu, a aceitação de que não terá uma felicidade terrestre. Será?
Nietzsche diria que é o preço que se paga por alcançar algo maior, diria que para se chegar às esferas superiores é preciso superar a necessidades das inferiores. Amores são então coisas comezinhas. Custa caro estar neste lugar!
Custa muito caro, bem venturado Nietzche! Mas, ao menos um de seus aforismos eu posso dizer que já comprovei: “O que não me mata, me fortalece!”.
É verdade...
Divagações à parte, talvez caiba a mim o mesmo quinhão que coube à Jane Austen, espero apenas que, como ela, eu toque, nem que seja com a ponta da unha, a composição do sublime.
Ao som de O Velho e o Moço (Rodrigo Amarante)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Lá vem o Natal...

Montes de gente emocionada, felizes, embaladas pelo tal ‘espírito natalino’.
Eu curto o Natal, acho legal isso de todo mundo ficar bonzinho, querer ligar para a mãe que mora longe, falar com o irmão vagabundo, querer ajudar criança de farol... Acho bem legal...
O que me irrita são as compras, a gente sai na rua e está todo mundo lá: Vai um não sei o que? E um não sei que lá? O preço é especial para o natal...
Ahhh cansa né?
Eu fico cansada demais saindo na rua nestes dias. Eu vou na rua e compro umas coisas e depois, quando chego em casa, fico olhando e pensando: “Por que raios eu comprei isso?”
Eu não estava precisando de nada e estava tudo bem. O plano era comprar um pisca-pisca, um guarda-chuva bom e uma luz companheira, vulgo abajur (porque tenho medo do escuro).
Plano feito... Vamos às compras... Luz, câmera e ação: Camila, Flávia e Cristiane na rua...
O pisca-pisca eu comprei, muito bonitinho, um que chama pisca-pisca arroz; o guarda-chuva também foi comprado, mas eu não sei se é bom ou não, no fim das contas tudo que eu queria era uma coisa rosa e prata porque é lindo e é a minha cara (a perua falou mais alto dentro de mim). A luz companheira foi comprada também como o planejado... Mas, de repente, lembrei que meu creme com pó de mica (um que brilha) tinha acabado e que precisava de uma toalha bem fofinha e vermelha. Itens comprados...
Não sei bem como foi que aconteceu, sei que coloquei uma melissa no pé e ficou linda, branca, com salto bonito, tudo de que me recordo é de mim saindo da loja com a sacola na mão. Eu comprei uma melissa, a Camila comprou uma e a Cris comprou outra... Como pode? E sabe por quê?
Porque é Natal...
O que tem a ver uma coisa com a outra?
O Natal existe porque o menino Jesus, o Messias, que veio para salvar o mundo, nasceu. Ele nasceu em uma manjedoura, segundo me consta, o que tem ele a ver com o capitalismo e as compras? Eu sei muito bem como a coisa degringolou para isso, mas isso é papo para um outro post.
Eu cheguei em casa e fiquei olhando para aquele sapato, de plástico, magicamente lindo (fetiche), como se ele fosse um alienígena. Como ele foi parar ali em cima da minha cama?
Maldito seja o capitalismo que consegue envolver em sua teia até mesmo a mim que até russo falo...
O vendedor Otávio da khelf nunca vai esquecer as três irmãs que passaram pela loja dele no sábado...
Quem aí usa 36?
- Ah moço só a Cris usa 36...
- 36? Não passa nem uma das minhas pernas... Sacanagem...
36 está na promoção porque só gente de mentira usa este tamanho...
Enfim, depois de muitas risadas e uma felicidade natalina, é verdade, nós três fomos para casa cheias de comprinhas inúteis, fora o guarda-chuva e a luz companheira (senão não durmo).
Não sei como, mas záz... lá estavam: uma melissa, um guarda-chuva, duas toalhas de banho, um creme com pó de mica, um blusinha, filmes, um pisca-pisca, uma luz companheira e minha barriga lotada de comida japonesa e um sorvete que não vale o que custa...
Eia... uplá... maldito capitalismo e maldito Papai Noel.
Mas, benditas sejam as minhas irmãs que custam exatamente mil sorrisos...
Agora é tomar banho, me enrolar na toalha e ligar o pisca-pisca para esperar o Natal.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Um crime americano?

Um título sugestivo, o que define o crime é o fato dele ser americano, ou seja, um crime tipicamente americano. Será? Como boa anti-americana, tendo a concordar com esse tipo de afirmativa. No entanto, não vou acreditando assim sem saber do que se trata. Afinal, fenômenos do Mal estão por toda parte, Hitler e Mussolini não nasceram nos Estados Unidos da América.
O que levaria um ser humano a agir como Gertrude Baniszweski (Catherine Keener)?
Essa é a atormentante pergunta que o diretor se faz e nos faz fazer também, não só Gertrude Baniszweski, mas também todas aquelas crianças, não apenas seus filhos, mas também as crianças de toda a vizinhança daquele bairro. Por que torturam Sylvia Likens (Ellen Page)?
Quando perguntadas a respeito do motivo pelo qual torturavam Sylvia, a resposta era simplesmente: Não sei!
Como não sabiam? O diretor Tommy O’Haver faz questão de ressaltar bem o fato de que se trata de uma comunidade altamente religiosa, todos vão à igreja, as crianças são todas freqüentadoras da igreja do bairro e o Reverendo Bill Collier (Michael O'Keefe) participa ativamente da vida de todas essas crianças. Pior que isso, todas as pessoas do bairro sabiam o que estava acontecendo na casa de Gertrude Baniszweski. E, quando perguntados pelo motivo de não abrirem a boca sobre tamanha atrocidade, disseram apenas que não podiam “se meter” e que cada pessoa sabe daquilo que acontece dentro de sua casa.
Primeiro tratemos de Gertrude Baniszweski, ela tem sua personalidade completamente afetada pela presença da jovem Sylvia Likens, uma moça inteligente, dedicada e até bem madura para sua juventude. Enfim, tudo que Gerlie queria que sua filha Paula (Ari Graynor) fosse.
Paula é uma jovem sem nenhum fundamento moral, sua mãe tem sete filhos, sendo que o último é filho de um jovem apenas seis anos mais velho que ela mesma, o que torna a mãe uma amiga sua e não mãe. Paula se mostra com uma personalidade muito parecida com a da própria mãe, alguém promíscuo, que não vê muito bem as fronteiras entre certo e errado quando o assunto é homens.
Gerlie então começa a descontar em Sylvia toda a sua frustração com a filha Paula. Na cabeça de Gerlie, Paula é alguém perfeito, jamais faria as coisas de que a acusam. Sylvia é que a má influência, ela é quem teria levado a semente da maldade para a casa dos Baniszweski. Então, cabe à Gerlie punir Sylvia por isso.
Veja bem que não se trata da representação do Mal, não se trata de um julgamento. Gerlie é ou não má? Acho que se trata muito mais de uma mente atormentada e o diretor deixa isso bem claro, ele não está dizendo que Gertrude é a representação do Mal, ela é alguém com graves problemas, apenas humana, por mais estranho que isso possa parecer.
Passemos para a outra parte da história. Por que as crianças não ajudam Sylvia e ainda por cima sentem prazer em machucá-la ainda mais?
Eu vejo uma série de valores distorcidos, não quero parecer uma tradicionalista dizendo isso, mas, só vejo esta explicação.
Lembrei-me dos julgamentos dos “culpados” pelos crimes ocorridos durante o período nazista. De quem é a culpa pelo nazismo ter existido? Do Hitler?
Certamente a resposta envolve uma série de fatores que não envolvem a idéia de uma única pessoa, Hitler tinha um plano, um plano bem definido, que foi crescendo e se tornando possível devido a muitos motivos. O Mal, aquilo que reconhecemos como sendo o contrário total do Bem, por principalmente violar a condição humana, que é para nós seres humanos inviolável, ou deveria ser, só é possível porque encontra condições ideais para se desenvolver e propagar.
Hannah Arendt, ao criar o magnífico termo “banalidade do mal”, tinha em mente isso, o mal se tornou algo banal, há condições para ele se desenvolver em quase qualquer lugar.
O Mal está dentro de cada um de nós certamente, diria Freud, mas não o cometemos porque somos seres civilizados, aprendemos a viver em sociedade e criamos valores éticos e morais que respeitam, sobretudo, a existência do outro. Viver em sociedade é levar em consideração que sua liberdade acaba onde começa o direito do outro.
Sendo assim, retornando ao caso verídico retratado no filme, parece haver um problema de valores morais. O que leva uma criança a desrespeitar a humanidade do outro? A não reconhecer que o outro sofre dores como ele também sofre?
Uma formação defasada. Trancada dentro de suas casas, assegurando suas individualidades, a sociedade que surgiu nos anos de ouro do capitalismo fez suas próprias regras. A história se passa justamente no início da crise dos Anos de Ouro do capitalismo, assim chamados por Eric Hobsbawn, 1965. A individualidade cultivada, sobretudo pela burguesia desde a Revolução Industrial, mas levada às últimas conseqüências nos nossos tempos, construiu uma nova forma de pensar, aqueles que têm dinheiro e podem jogar o jogo do capitalismo se preservam, organizam-se em pequenos grupos que façam valer aquilo em que acreditam. No entanto, uma parcela grande da população é deixada de fora, isso no mundo inteiro, não apenas nos Estados Unidos. Essa parcela cria também suas próprias regras. Mas, note-se bem que isso não é viver em sociedade, isso é visar unicamente seu próprio bem, sua própria forma de viver. Sendo assim, acredito sim, que nos Estados Unidos haja condições mais específicas para esse tipo de horror se desenvolver.
O Mal torna-se banal à medida que o respeito ao outro se perde, as regras do jogo são outras, o outro é considerado como alguém que está no jogo ou não está.
E, para terminar, o diretor deixa a inquietante pergunta: Deus tem um plano para todos, qual era o plano dele para Sylvia Likens?
Para afirmar mais uma vez, que em uma sociedade sem valores, nem Deus se justifica.
Não é um grande filme, afinal o foco está muito mais na história contada, ou seja, vemos nitidamente que o conteúdo é valorizado em detrimento da forma, o diretor deixou a “história se contar”, baseou-se unicamente nos depoimentos registrados e colocou sua imaginação para funcionar. Se não constrói nenhuma obra de arte cinematográfica, é válido pelo mérito de refazer as inquietantes perguntas feitas por tantos outros grandes pensadores ao longo dos tempos como Machado de Assis, Dostoiévski, Tolstói e a própria Hanna Arendt, já citada. Não parece ser preocupação dos norte-americanos fazer perguntas inquietantes, mas sim manter um simulacro de felicidade, garantido pelo falso otimismo existente em quase toda a cultura de massa produzida por eles. Só por ir contra a tudo isso, o filme de Tommy O’Haver, com roteiro dele próprio e de Irene Turner, já merece ser visto.
Perfeita a atuação de Catherine Keener como a estranha Gertrude.
Antes de assistir, prepare seus sentidos acostumados com uma realidade artificialmente sob controle, tudo será “sacudido”.

Ouvindo: Saudade - Marcelo Camelo

domingo, 9 de novembro de 2008

Nem tudo está perdido...

Difícil acreditar em algumas coisas...
Foram duas semanas difíceis, algumas pessoas fazem por um curto espaço de tempo, mas conseguem fazer com que nos sintamos soterrados...
Qual o motivo? Por que se deixar abater por alguém tão infinitamente menor espiritualmente, deslumbrado, alienado...
Evito sempre dividir seres humanos em categorias, no entanto, às vezes torna-se impossível evitar, pois, eu, como ser humano ativo e pensante no mundo, tenho sim uma opinião a respeito de tudo, inclusive a respeito de pessoas. Sendo assim, eu acho que há gente melhor e pior, se considerarmos alguns pontos de vista.
Neste mundo loucamente competitivo, às vezes o poder é dado a quem não o merece de fato, me preocupa a idéia de que talvez ninguém mereça o poder. Será verdade a afirmação de Bakunin, de que qualquer pessoa quando sobe ao poder será irremediavelmente corrompida? Assombra-me essa possibilidade. Bakunin era um radical, anarquista e por isso não achava que haveria um meio-termo (vamos usar o hífen, enquanto o presidente permite). Tudo é o extremo. Eu ainda quero acreditar que nem todos tornar-se-ão víboras diante do poder.
O fato é que o poder é, muitas vezes, dado a pessoas despreparadas que não sabem o que fazer com ele, e me refiro a qualquer tipo de poder. Não é apenas o fato de ganhar mais, ter um cargo maior, não, existe também um poder nominal, um que é apenas funcional...
Mas, uma vez que um ser com um poder nominal e funcional me fez quase ir às raias da loucura... Fui salva!
A sensação que provei só pode ser entendida por aqueles que, como eu, adoram estudar e sentem um prazer quase que divino quando lêem algo realmente elevado, acima do bem e do mal, aquilo que te leva à catarse. A maravilhosa sensação de reconhecer e ter o “poder” de contemplar uma obra de arte.
Um indivíduo realmente elevado, aquele que transmite sabedoria, que além de ser genialmente brilhante é de uma simpatia boa, de uma simplicidade. Por causa de alguém como essa professora a quem me refiro, não posso crer que todos são corrompidos pelo poder, porque ela, de fato, tem um poder, um poder real, ela detém o conhecimento, a coisa mais cara no mundo, aquilo que não se compra, aquilo que não pode ser roubado. E, eu, ser pequenino diante do trajeto trilhado por essa mulher incrível, tive a felicidade de ser elogiada por ela. Não qualquer elogio, o elogio que te faz ir ao céu, que tira seus pés do chão.
O reconhecimento de um grande esforço. Ela me fez enxergar que eu também detenho conhecimento, em menor escala que o dela, mas, ainda assim o suficiente para, finalmente, entender que eu não posso me deixar abater ou soterrar por qualquer um, porque existem categorias de seres humanos e eu, definitivamente, não estou na categoria dos imbecis.
Obrigada querida Annie por me fazer entender isso...

Ao som de Inverno, de Antonio Vivaldi! Da composição As quatro estações