Após tanto tempo que não passo por aqui, fiquei pensando se deveria escrever sobre o fantástico A Origem, que assisti ontem, ou se deveria falar de outra coisa.
Resolvi falar de outra coisa, porque A Origem rende assunto que não acaba mais, e precisa estar muito bem para falar desse filme, porque haja articulação para se fazer clara...
Tomei uma decisão nesta semana que passou. Fiquei de férias e, semana passada, ao retornar ao trabalho, tive uma surpresa, tudo estava diferente, de repente, eu não era mais importante no lugar, me deram uma nova chefe, um novo espaço e eu perdi meu chão... Me chatiei, chorei, mas daí lembrei que eu já não queria aquele trabalho, não queria mais ser o ghost writer de ninguém, e já fazia um tempo.
É cansativo demais viver à sombra, são quase cinco anos de trabalho bem feito em que outro leva vantagem, se vangloria, se envaidece com o meu trabalho, esperava pela minha chance de não estar por trás, achava, de verdade, que dessa vez olhariam para mim como alguém que importa, mas não olharam... Resolvi sair.
Ir em busca de um lugar em que eu possa me sobressair, no qual exista uma chance para eu mesma levar os méritos por aquilo que eu faço.
Ainda não sei que lugar é este, como será, quero pensar. Refletir sobre o que será melhor para mim. Apesar de tudo, sou muito grata ao anos que passei no meu trabalho, grata porque lá foi minha primeira chance, ainda que hoje seja difícil de encarar assim, de certa maneira, aprendi muito e isso é muito importante.
Mas o que este emprego, que agora já não me serve mais, me trouxe de melhor foi a possibilidade de aprender um ofício, e bem aprendido, a oportunidade de mostrar trabalho, saio agora porque só isso já não basta, preciso de reconhecimento, de satisfação pessoal, de qualidade de vida, do meu sorriso, da minha alegria de viver...
Sinto demais pelos que ficam, gostaria de poder carregá-los comigo: Mariana, Cristiane, Tania... presentinhos de todos os dias.
Viver é complicado, mudar, tomar decisões...
É preciso seguir, está decidido e não tem volta, saio em busca do meu futuro, da minha vida.
Agradeço ao meu amor, esperança diária de que tudo pode dar certo porque eu tenho a ele e ele tem a mim. Obrigada Cris, por me dizer todo o santo dia quem sou eu, é bom ter alguém para lembrar, às vezes, na bagunça do dia a dia, esquecemos, a luz fica tão apagadinha que a gente quase se esquece do que é capaz.
Como eu sempre digo, eu não vim neste mundo a passeio, acredite!
domingo, 8 de agosto de 2010
domingo, 25 de julho de 2010
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Sem você, sou pá furada...
Essa história pode parecer meio palerma, mas, como dizia o sábio Tchekhov, é preciso ter coragem de escrever palermices se você quiser um dia escrever uma coisa boa...
Vejamos então, minha irmã, a Cristiane, apareceu mais forte na minha vida quando a minha vovó ficou doente. Eu estava meio adormecida nessa época, tinha cuidado de uma tia doente, cuidava de uma avó doente, tinha um namorado sufocante e uma chefe idem...
Eis que minha irmã me aparece em casa cheia de vontade de viver e historinhas para contar, era um tal de bandas legais, de Los Hermanos, de filmes legais, e eu comecei a achar engraçado o fato de que eu, Flávia, tinha sido inspiração para boa parte do que minha irmã é, mas eu mesma não era mais aquela lá que inspirou tudo isso, eu estava hibernando.
Foi então que eu acordei, comecei a achar que devia pegar minha vida de volta, e peguei... Eu já contei essa história umas cem vezes aqui no blog, e é fato que ninguém força ninguém a nada, então a gente é feito de bobo porque, muitas vezes, tem predisposição para isso. Este post é só para agradecer a minha irmã, que tem sardas que nem eu, que é pálida que nem eu, por ter aparecido na minha vida e ter dito: “Muito prazer, eu era você ontem, lembra?”
Pois é, eu lembrei, voltei a ir às festas, a ver os filmes preferidos, a ouvir as músicas. E mais, minha irmã, pois é, mais nova que eu uns seis anos, me apresentou um monte de coisas novas, bandas, filmes, livros, não... porque essa é a minha especialidade hahaha
Estes dias estava discutindo sobre o que é ser ignorante, ser ignorante é quando você se fecha para as coisas, está lacrado, não quer mais aprender e se acha suficiente. Eu não sou, e adoro muito não ser, adoro conseguir ir ao cinema ver Eclipse com um monte de adolescentes porque eu estou disposta a isso. Aliás, fico muito feliz que os adolescentes gostem de alguém como o Edward Collen ou Justin Bieber.
Enfim, eu aprendi um monte com a minha irmã, ela talvez nem saiba disso, porque ela pensa que eu sou tipo um oráculo, com toda a sabedoria, mas eu não sou, eu sou só alguém que reaprendeu a viver, e tudo isso porque eu tive uma irmã para me salvar de mim mesma.
Obrigada!
segunda-feira, 28 de junho de 2010
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Adeus Saramago...
Ficou faltando dar meu adeus ao mestre Saramago...
Na última sexta-feira (18 de junho), todos nós nos tornamos um pouco órfãos. Tão difícil aceitar que nem gênios duram para sempre. No trabalho, comentei com os amigos aquele dia tão bonito em que Saramago assistiu ao filme de Fernando Meirelles ao seu lado e não se contendo de emoção ao ver o filme, o ídolo irretocável caiu no choro... Meirelles num misto de desespero, emoção, euforia levantou e beijou a cabeça de Saramago. Com humildade o mestre reconheceu que o diretor também fizera uma outra obra de arte baseando-se na sua.
Se Memorial do Conventou levou Saramago ao sucesso mundial, o melhor livro que li do escritor tão querido foi "Levantado do chão", ao cabo do livro fica a pergunta que tantas vezes nos fazemos a respeito dos gênios: Será ele um humano mesmo, feito da mesma matéria que eu?
Porque Saramago não estava absolutamente entre nós, ele era mais e melhor, por gente como ele é que nós não desistimos das queridas Letras, tão abandonada em tempos de textos mínimos e praticidades absurdas.
Ainda há pouco, eu terminei de ler O primeiro homem, livro que trata da primeira infância do célebre escritor Albert Camus, ao final, eu pensei: este livro é também uma tentativa de explicar como Camus teria chegado até ali, com seu romances recheados de tudo de si, praia, sol, mortes, superação, o absurdo. Ele dedicou tudo aquilo que era ao seu professor de quarta-série que mudou a vida dele mostrando que havia um caminho muito além da pobreza da miserável Argélia... Camus descobriu que a literatura poderia levá-lo a outros lugares, não apenas metaforicamente, mas principalmente, ele fez da literatura sua razão de viver.
É isso que livros fazem pelas pessoas, não por todos, infelizmente, porque nem todos têm a felicidade de encontrar o alguém que identifica em nós uma sentelha de algo e logo passa a agir para que aquilo aflore, venha à tona plenamente.
Eu li Levantado do chão já na faculdade e indico, se você amou o Saramago dos últimos tempos, vai adorar muito mais este, que fala da massa que somos nós: os fracos e ofendidos.
"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão."
(Carlos Drummond de Andrade)
Na última sexta-feira (18 de junho), todos nós nos tornamos um pouco órfãos. Tão difícil aceitar que nem gênios duram para sempre. No trabalho, comentei com os amigos aquele dia tão bonito em que Saramago assistiu ao filme de Fernando Meirelles ao seu lado e não se contendo de emoção ao ver o filme, o ídolo irretocável caiu no choro... Meirelles num misto de desespero, emoção, euforia levantou e beijou a cabeça de Saramago. Com humildade o mestre reconheceu que o diretor também fizera uma outra obra de arte baseando-se na sua.
Se Memorial do Conventou levou Saramago ao sucesso mundial, o melhor livro que li do escritor tão querido foi "Levantado do chão", ao cabo do livro fica a pergunta que tantas vezes nos fazemos a respeito dos gênios: Será ele um humano mesmo, feito da mesma matéria que eu?
Porque Saramago não estava absolutamente entre nós, ele era mais e melhor, por gente como ele é que nós não desistimos das queridas Letras, tão abandonada em tempos de textos mínimos e praticidades absurdas.
Ainda há pouco, eu terminei de ler O primeiro homem, livro que trata da primeira infância do célebre escritor Albert Camus, ao final, eu pensei: este livro é também uma tentativa de explicar como Camus teria chegado até ali, com seu romances recheados de tudo de si, praia, sol, mortes, superação, o absurdo. Ele dedicou tudo aquilo que era ao seu professor de quarta-série que mudou a vida dele mostrando que havia um caminho muito além da pobreza da miserável Argélia... Camus descobriu que a literatura poderia levá-lo a outros lugares, não apenas metaforicamente, mas principalmente, ele fez da literatura sua razão de viver.
É isso que livros fazem pelas pessoas, não por todos, infelizmente, porque nem todos têm a felicidade de encontrar o alguém que identifica em nós uma sentelha de algo e logo passa a agir para que aquilo aflore, venha à tona plenamente.
Eu li Levantado do chão já na faculdade e indico, se você amou o Saramago dos últimos tempos, vai adorar muito mais este, que fala da massa que somos nós: os fracos e ofendidos.
"Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão."
(Carlos Drummond de Andrade)
sábado, 29 de maio de 2010
Sobre como eu trato a economia...
Nos meus trabalhos de revisão, vira e mexe, aparece alguma coisa sobre economia, fala-se da necessidade de guardarmos dinheiro para quando envelhecermos, tem um livro tosco, tosco, que fala sobre a necessidade de nós, mulheres, não sermos boazinhas se quisermos enriquecer, e o novo hit do momento, casais inteligentes enriquecem juntos!
Queria dizer umas palavrinhas a respeito...
Sobre o dinheiro para quando ficarmos velhinhos:
O tonto que aconselha que eu guarde sei lá quantos por cento do meu salário para quando eu ficar velha, não sabe que eu gostaria muitíssimo de viver agora mesmo, portanto, vai ficar difícil eu guardar todo o meu rico dinheirinho para quando eu ficar velhinha e estiver me arrastando por aí. Eu não gosto de praia agora e não vou gostar depois, portanto, quando eu for velha, é bem provável que eu faça as mesmas coisas que eu faço agora, com exceção da balada, acho que não vai rolar...
Bom, faz parte, é a vida, não dá pra encher a cara e dançar a noite toda para sempre, talvez dê para encher a cara, espero eu...
Além do mais, eu já pago a previdência, oras, e ainda tenho uma poupancinha, que é para caso algo estranho venha acontecer com a minha pessoa, mas eu não faço nenhum sacríficio, não, não...
Sobre a mulher boazinha:
Essa me ofende profundamente, porque eu sou essencialmente uma pessoa boazinha, é do meu caráter, eu não consigo, e nem quero, evitar... Se você assistiu ao último filme do Woody Allen lançado em terras tupiniquins, vai se lembrar que a maior parte das coisas que acontecem em nossas vidas, acontecem à revelia, então, continuarei a ser como sou, vem dando tudo certo por enquanto. Só passaram pessoas ótimas pela minha vida, só teve um desgraçado gaúcho, mas ele sofre daquela Síndrome de Asperge; a minha luta diária para ser "alguém", como dizem alguns tontos, vem dando certo, e tudo parece estar maravilhosamente ótimo... Até um novo e talvez eterno amor apareceu na minha vida...
Então, é tudo besteira essa história de que as boazinhas não enriquecem e nem chegam a lugar nenhum... Oras, bolas... que besteira sem fim...
Tudo sempre pode dar certo!
Sobre os casais:
hahahaha essa é piada né?
Como pode alguém achar que um casal deve pensar profundamente sobre enriquecer junto, não deve e nem precisa.
Amar é se enroscar embaixo do edredon, é dormir de conchinha, é ficar junto e rir junto, é achar a vida boa só porque um outro alguém transforma tudo todo dia com sua simples existência.
O amor não é aquela coisa brega e romântica da propaganda, é preciso ser realista, cada um é da maneira que é, mas é totalmente sensacional, quando, por algum motivo os deuses confabulam e te colocam no caminho alguém que parece ser a tal metade da laranja, alguém quase igual...
Para quê pensar em enriquecer... eu quero mais é ser feliz...
Desde o princípio, apesar de não ser nenhuma besta, a minha escolha sempre foi pela felicidade, o correto, o escolhido, sempre foi aquilo que me faz feliz and finish...
Para terminar... a vida é muito mais que juntar uns trocados, dinheiro é feito para comprar um bom livro, um ótimo vinho, um dvd, fazer uma viagem, comprar sapato, enfim, dinheiro é só aquela coisinha mágica que é capaz de comprar coisas que contribuem para sua felicidade e, se eu quero ser feliz hoje, não faz sentido nenhum eu guardar meu dinheiro para usar amanhã...
Queria dizer umas palavrinhas a respeito...
Sobre o dinheiro para quando ficarmos velhinhos:
O tonto que aconselha que eu guarde sei lá quantos por cento do meu salário para quando eu ficar velha, não sabe que eu gostaria muitíssimo de viver agora mesmo, portanto, vai ficar difícil eu guardar todo o meu rico dinheirinho para quando eu ficar velhinha e estiver me arrastando por aí. Eu não gosto de praia agora e não vou gostar depois, portanto, quando eu for velha, é bem provável que eu faça as mesmas coisas que eu faço agora, com exceção da balada, acho que não vai rolar...
Bom, faz parte, é a vida, não dá pra encher a cara e dançar a noite toda para sempre, talvez dê para encher a cara, espero eu...
Além do mais, eu já pago a previdência, oras, e ainda tenho uma poupancinha, que é para caso algo estranho venha acontecer com a minha pessoa, mas eu não faço nenhum sacríficio, não, não...
Sobre a mulher boazinha:
Essa me ofende profundamente, porque eu sou essencialmente uma pessoa boazinha, é do meu caráter, eu não consigo, e nem quero, evitar... Se você assistiu ao último filme do Woody Allen lançado em terras tupiniquins, vai se lembrar que a maior parte das coisas que acontecem em nossas vidas, acontecem à revelia, então, continuarei a ser como sou, vem dando tudo certo por enquanto. Só passaram pessoas ótimas pela minha vida, só teve um desgraçado gaúcho, mas ele sofre daquela Síndrome de Asperge; a minha luta diária para ser "alguém", como dizem alguns tontos, vem dando certo, e tudo parece estar maravilhosamente ótimo... Até um novo e talvez eterno amor apareceu na minha vida...
Então, é tudo besteira essa história de que as boazinhas não enriquecem e nem chegam a lugar nenhum... Oras, bolas... que besteira sem fim...
Tudo sempre pode dar certo!
Sobre os casais:
hahahaha essa é piada né?
Como pode alguém achar que um casal deve pensar profundamente sobre enriquecer junto, não deve e nem precisa.
Amar é se enroscar embaixo do edredon, é dormir de conchinha, é ficar junto e rir junto, é achar a vida boa só porque um outro alguém transforma tudo todo dia com sua simples existência.
O amor não é aquela coisa brega e romântica da propaganda, é preciso ser realista, cada um é da maneira que é, mas é totalmente sensacional, quando, por algum motivo os deuses confabulam e te colocam no caminho alguém que parece ser a tal metade da laranja, alguém quase igual...
Para quê pensar em enriquecer... eu quero mais é ser feliz...
Desde o princípio, apesar de não ser nenhuma besta, a minha escolha sempre foi pela felicidade, o correto, o escolhido, sempre foi aquilo que me faz feliz and finish...
Para terminar... a vida é muito mais que juntar uns trocados, dinheiro é feito para comprar um bom livro, um ótimo vinho, um dvd, fazer uma viagem, comprar sapato, enfim, dinheiro é só aquela coisinha mágica que é capaz de comprar coisas que contribuem para sua felicidade e, se eu quero ser feliz hoje, não faz sentido nenhum eu guardar meu dinheiro para usar amanhã...
sábado, 1 de maio de 2010
Mary and Max
No sábado passado, eu pensei: Vou assistir a um filme bobinho, para variar, pensar demais cansa às vezes...
Então, ao ver o cartaz de Mary e Max – Uma amizade diferente, lembrei que já tinha visto o trailer e fiquei pensando que o Philip Seymour Hoffman, que faz a voz do Max, não ia aceitar fazer qualquer porcaria, sendo assim, devia ser um filme levinho com um toque de inteligência no mínimo. Descobri depois que Tony Collette (do maravilhoso Pequena Miss Sunshine) fazia a voz da Mary.
Foi uma surpresa, nada de filminho light, o diretor Adam Elliot construiu um panorama completo da vida de duas pessoas muito diferente. Mary é uma menina triste cheia de esperanças quando começa a se corresponder com Max, um quarentão sem qualquer esperança na vida.
Max é um personagem complexo, acumula um certo conhecimento de mundo, próprio de sua idade, mas é o que poderíamos chamar de “incompetente social”, mais tarde descobriremos que ele sofre da Síndrome de Asperger, que é algo bem difícil de explicar, então se você não sabe do que se trata, vá ao Wikipedia.
A linguagem doce de Mary, logo descobrimos, é fruto apenas de sua infância, afinal, não há doçura nenhuma na vida de Mary, assim como na de Max. São personagens que se unem por uma única coisa em comum, são seres essencialmente solitários. Mary parece estar sozinha por não gostar muito da imagem que vê no espelho e Max pelo problema já citado.
Não consigo não pensar nas definições de romance propostas por Lukács, no indivíduo que vive dentro do capitalismo, na solidão que isso causou, Mary e Max são exemplares genuínos desse mundo capitalista, e, ao mesmo tempo, nós que vamos ao cinema assistir a um filminho “levinho”, como eu disse de início, nos divertimos também à moda da sociedade capitalista. Diante da solidão, saímos de nossas casas e procuramos o conforto de um cinema quentinho, que mostre uma história bonitinha que nos traga alguma forma de conforto. Sim, porque ainda que sentemos ao lado de tantas outras pessoas, estamos todos dentro de nossa bolha particular, estamos todos, me parece, irremediavelmente sós.
Se o romance é a invenção do homem para ter uma diversão a sós, ou seja, provando que é possível ser feliz sozinho em casa, com um facho de luz a iluminar o livro, o cinema é uma evolução disso, é uma história que se conta em, no máximo, três horas e dentro dela, assim como no romance, somos chamados a viver uma felicidade que não é nossa, mas que, por algum tempo, parece ser. Os filmes hollywoodianos podem, em sua maioria, ser enquadrados nesta descrição, mas,Mary e Max, não, se você busca o conforto de um romance banal ao ir ver este filme irá, literalmente, quebrar a cara, sairá da sala um tanto triste, carregando um sentimento de melancolia e a sensação de que alguma coisa dentro de você foi bagunçada, e é isso mesmo... Todos os dramas do indivíduo moderno são remontados bem ali na tela, em um curtíssimo espaço de tempo, 80 minutos, uma hora e dez minutos.
A classificação fala que o filme pode ser visto por crianças a partir de 12 anos, pelo que eu disse até agora, você acha que é possível para uma criança desta idade ver um filme assim?
Não é mesmo.
Cheio de sacadas inteligentes, o filme “levinho e reconfortante de sábado à noite” se transformou no melhor filme que eu assisti neste ano, e não foram poucos.
Mesmo com o sentimento doído de melancolia, podemos dizer que o filme é muito bonitinho, não um bonitinho bobo, a beleza está na sinceridade com que é contado, pelo singelo das imagens, pela linda trilha que ajuda a formar toda a atmosfera de cotidiano retratada no filme. Um cotidiano que se repete e se repete e se repete, a quebra se dá por algumas desgraças inevitáveis, mas a beleza está na amizade construída pelos personagens à distância, esta é uma quebra definitiva no cotidiano de Mary e Max, uma carta colocada na caixa do correio muda a cadência e o significado de duas pessoas tão diferentes. A existência de uma modifica a da outra. Max faz sua primeira amiga na vida, uma menininha que queria saber de onde vinham os bebês em Nova Iorque. E Mary faz seu primeiro amigo, um adulto em quem pode confiar, que, apesar da diferença de idade, gosta das mesmas coisas que ela.
Nós, sujeitos modernos, parecemos buscar eternamente uma fuga, que acontece, quase sempre, pela arte, buscamos na arte a nossa redenção, a nossa salvação, como queria Goethe, mas, ao assistir o filme, pensei em algo bem mais simples, em uma mensagem bem pura e desprovida de grandes pretensões, assim como a animação feita com bonequinhos de argila na era de Avatar, James Cameron e a superimagem 3D; às vezes, algo bom está apenas do outro lado da rua, está no aproximar-se de outras pessoas e sair um pouco da bolha, é enxergar o outro, afinal, a maioria de nós não tem fobia de pessoas, nem Síndrome de Asperger como os personagens do filme, mas vivemos como se todos sofrêssemos de uma dessas doenças. Uma amizade, um amor ou um ente querido tem o poder de modificar o mundo à nossa volta, como modificou a vida de Mary e Max.
Uma ótima mensagem do diretor Adam Elliot, perfeita para os dias de hoje, filme excelente!
Então, ao ver o cartaz de Mary e Max – Uma amizade diferente, lembrei que já tinha visto o trailer e fiquei pensando que o Philip Seymour Hoffman, que faz a voz do Max, não ia aceitar fazer qualquer porcaria, sendo assim, devia ser um filme levinho com um toque de inteligência no mínimo. Descobri depois que Tony Collette (do maravilhoso Pequena Miss Sunshine) fazia a voz da Mary.
Foi uma surpresa, nada de filminho light, o diretor Adam Elliot construiu um panorama completo da vida de duas pessoas muito diferente. Mary é uma menina triste cheia de esperanças quando começa a se corresponder com Max, um quarentão sem qualquer esperança na vida.
Max é um personagem complexo, acumula um certo conhecimento de mundo, próprio de sua idade, mas é o que poderíamos chamar de “incompetente social”, mais tarde descobriremos que ele sofre da Síndrome de Asperger, que é algo bem difícil de explicar, então se você não sabe do que se trata, vá ao Wikipedia.
A linguagem doce de Mary, logo descobrimos, é fruto apenas de sua infância, afinal, não há doçura nenhuma na vida de Mary, assim como na de Max. São personagens que se unem por uma única coisa em comum, são seres essencialmente solitários. Mary parece estar sozinha por não gostar muito da imagem que vê no espelho e Max pelo problema já citado.
Não consigo não pensar nas definições de romance propostas por Lukács, no indivíduo que vive dentro do capitalismo, na solidão que isso causou, Mary e Max são exemplares genuínos desse mundo capitalista, e, ao mesmo tempo, nós que vamos ao cinema assistir a um filminho “levinho”, como eu disse de início, nos divertimos também à moda da sociedade capitalista. Diante da solidão, saímos de nossas casas e procuramos o conforto de um cinema quentinho, que mostre uma história bonitinha que nos traga alguma forma de conforto. Sim, porque ainda que sentemos ao lado de tantas outras pessoas, estamos todos dentro de nossa bolha particular, estamos todos, me parece, irremediavelmente sós.
Se o romance é a invenção do homem para ter uma diversão a sós, ou seja, provando que é possível ser feliz sozinho em casa, com um facho de luz a iluminar o livro, o cinema é uma evolução disso, é uma história que se conta em, no máximo, três horas e dentro dela, assim como no romance, somos chamados a viver uma felicidade que não é nossa, mas que, por algum tempo, parece ser. Os filmes hollywoodianos podem, em sua maioria, ser enquadrados nesta descrição, mas,Mary e Max, não, se você busca o conforto de um romance banal ao ir ver este filme irá, literalmente, quebrar a cara, sairá da sala um tanto triste, carregando um sentimento de melancolia e a sensação de que alguma coisa dentro de você foi bagunçada, e é isso mesmo... Todos os dramas do indivíduo moderno são remontados bem ali na tela, em um curtíssimo espaço de tempo, 80 minutos, uma hora e dez minutos.
A classificação fala que o filme pode ser visto por crianças a partir de 12 anos, pelo que eu disse até agora, você acha que é possível para uma criança desta idade ver um filme assim?
Não é mesmo.
Cheio de sacadas inteligentes, o filme “levinho e reconfortante de sábado à noite” se transformou no melhor filme que eu assisti neste ano, e não foram poucos.
Mesmo com o sentimento doído de melancolia, podemos dizer que o filme é muito bonitinho, não um bonitinho bobo, a beleza está na sinceridade com que é contado, pelo singelo das imagens, pela linda trilha que ajuda a formar toda a atmosfera de cotidiano retratada no filme. Um cotidiano que se repete e se repete e se repete, a quebra se dá por algumas desgraças inevitáveis, mas a beleza está na amizade construída pelos personagens à distância, esta é uma quebra definitiva no cotidiano de Mary e Max, uma carta colocada na caixa do correio muda a cadência e o significado de duas pessoas tão diferentes. A existência de uma modifica a da outra. Max faz sua primeira amiga na vida, uma menininha que queria saber de onde vinham os bebês em Nova Iorque. E Mary faz seu primeiro amigo, um adulto em quem pode confiar, que, apesar da diferença de idade, gosta das mesmas coisas que ela.
Nós, sujeitos modernos, parecemos buscar eternamente uma fuga, que acontece, quase sempre, pela arte, buscamos na arte a nossa redenção, a nossa salvação, como queria Goethe, mas, ao assistir o filme, pensei em algo bem mais simples, em uma mensagem bem pura e desprovida de grandes pretensões, assim como a animação feita com bonequinhos de argila na era de Avatar, James Cameron e a superimagem 3D; às vezes, algo bom está apenas do outro lado da rua, está no aproximar-se de outras pessoas e sair um pouco da bolha, é enxergar o outro, afinal, a maioria de nós não tem fobia de pessoas, nem Síndrome de Asperger como os personagens do filme, mas vivemos como se todos sofrêssemos de uma dessas doenças. Uma amizade, um amor ou um ente querido tem o poder de modificar o mundo à nossa volta, como modificou a vida de Mary e Max.
Uma ótima mensagem do diretor Adam Elliot, perfeita para os dias de hoje, filme excelente!
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